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Psicóloga em Alphaville, Barueri – SP – Monica Komora

Não sei o que estou sentindo? Entenda a dificuldade de nomear emoções

Toda semana eu recebo pelo menos um paciente que chega no consultório com uma versão da mesma frase: “eu sei que não estou bem, mas não sei dizer o que eu sinto.” Não é falta de vontade de falar. É que, na hora de nomear a emoção, simplesmente não vem nada — só um mal-estar difuso, sem contorno, sem nome.

Isso costuma gerar uma confusão danosa: a pessoa acha que, se não consegue nomear o que sente, então talvez não sinta nada — ou pior, que tem algo “quebrado” nela. Não é isso. Nomear emoção é uma habilidade, não um dom. E como toda habilidade, ela se desenvolve (ou não) dependendo do ambiente onde a pessoa cresceu e viveu.

Este texto é pra quem já ouviu — ou já disse pra si mesmo — frases como “eu não sei o que eu sinto”, “eu travo quando alguém pergunta como eu estou” ou “eu só percebo que estou mal quando já estourei”. Vou explicar o que costuma estar por trás disso, por que acontece, como isso afeta quem está por perto, e o que, na prática, ajuda a mudar esse padrão.

O que significa, exatamente, não conseguir nomear o que se sente?

Quando falamos de dificuldade de nomear emoções, estamos falando de um espectro. Nem todo mundo que trava na hora de descrever um sentimento tem uma condição clínica chamada alexitimia — termo mais técnico, usado quando essa dificuldade é persistente, generalizada e vem acompanhada de outros sinais. A maior parte das pessoas que sente esse travamento não tem diagnóstico nenhum: só nunca desenvolveu esse vocabulário.

Existe uma diferença importante entre duas coisas:

  • Perceber a sensação física — peito apertado, corpo tenso, sono ruim, vontade de sumir;
  • Traduzir essa sensação em uma palavra que descreva a emoção — raiva, tristeza, medo, ou uma mistura das três.

A maioria das pessoas que me procura dizendo “não sei o que sinto” está inteira na primeira etapa e nunca chegou na segunda. O corpo avisa. A tradução é que não acontece.

Vale uma distinção que ajuda a entender por que isso varia tanto de pessoa pra pessoa: existe uma forma que nasce mais com a pessoa, ligada a um jeito de processar emoção que já vem de cedo na vida, e existe uma forma que se desenvolve depois, geralmente como resposta a um ambiente que não deixava espaço pra sentir. As duas se parecem por fora, mas o caminho pra trabalhar cada uma é um pouco diferente.

Por que algumas pessoas nunca aprenderam a nomear o que sentem?

Isso quase sempre tem a ver com o ambiente em que a pessoa cresceu. Casas onde emoção não era assunto — “não chora”, “não tem motivo pra ficar triste”, “para de exagerar” — ensinam a criança a desligar do próprio sentir, não a interpretá-lo.

Outro caminho comum: ambientes caóticos ou instáveis, onde prestar atenção na própria emoção era menos prioritário do que simplesmente atravessar o dia. Numa casa em crise constante, ninguém para pra nomear o que sente — todo mundo está em modo de sobrevivência.

Tem um terceiro caminho, menos falado: pessoas que aprenderam cedo que sentir “demais” gerava problema — brigava, afastava, incomodava — e desenvolveram o hábito de cortar o sentimento antes mesmo dele virar palavra. Com o tempo, esse corte vira automático.

O que a gente sabe hoje é que essa dificuldade tem menos a ver com ausência de emoção e mais com a falta de prática em traduzir sensação corporal em linguagem emocional. É uma competência que envolve áreas do cérebro relacionadas ao processamento emocional e à empatia — e que, justamente por depender de prática, pode ser desenvolvida depois, na vida adulta, mesmo quando não tenha sido treinada na infância.

Isso afeta só quem sente, ou também quem está por perto?

Afeta os dois lados, e de um jeito que costuma gerar bastante mal-entendido. Quando alguém não consegue nomear o que sente, também tem mais dificuldade de reconhecer e nomear o que o outro está sentindo — o que torna conversas difíceis ainda mais difíceis, porque falta um vocabulário comum pros dois lados.

Isso aparece com frequência dentro de relacionamentos: um parceiro pede “me conta o que você está sentindo” e o outro trava, não porque não quer se abrir, mas porque genuinamente não sabe o que está acontecendo por dentro. Quem pediu interpreta isso como distância ou desinteresse. Na real, muitas vezes é justamente o oposto — a pessoa quer se conectar, mas não tem a ferramenta pra fazer isso naquele momento.

Com o tempo, essa dificuldade não resolvida tende a gerar isolamento: a pessoa evita conversas que exigem nomear sentimento, porque cada tentativa fracassada de responder “como você está” reforça a sensação de que tem algo errado nela. Esse ciclo se retroalimenta e, sem intervenção, só piora.

Existe diferença entre ser uma pessoa reservada e ter essa dificuldade real?

Sim, e essa diferença é importante. Nem toda pessoa quieta, ou que prefere não compartilhar sentimentos abertamente, tem dificuldade de nomear o que sente. Reserva é estilo — a pessoa sabe o que sente, só escolhe não expor isso com todo mundo.

A dificuldade de que estamos falando aqui é outra coisa: não é escolher não falar, é genuinamente não ter acesso à informação. A pergunta “como você está?” não gera uma escolha entre responder ou não — gera um vazio, porque a resposta simplesmente não está disponível internamente naquele momento. Essa distinção ajuda a pessoa a parar de se cobrar por algo que não é falta de vontade.

Qual é o erro mais comum quando isso acontece?

O erro mais comum que eu vejo aqui no consultório é achar que é preciso “descobrir” a emoção certa antes de falar alguma coisa — como se existisse uma resposta única e correta esperando pra ser encontrada.

Na minha experiência, o que ajuda não é procurar o rótulo perfeito logo de cara. É começar pelo corpo e ir se aproximando aos poucos, com tentativa e erro. Quem espera “sentir claro” pra só então falar, geralmente não chega a falar nunca — porque a clareza vem depois da tentativa, não antes dela.

Vale derrubar um mito direto aqui: quem não consegue nomear o que sente não é uma pessoa fria, indiferente ou sem emoção. É, quase sempre, o oposto — alguém que sente muito, mas nunca teve chance de aprender o dicionário daquilo que sente.

O que costuma funcionar para desenvolver esse vocabulário emocional?

Algumas práticas ajudam a construir essa ponte entre corpo e palavra, com o tempo:

  • Comece pelo corpo, não pelo nome da emoção. Em vez de perguntar “o que eu sinto?”, pergunte “onde no corpo eu sinto isso, e o que esse lugar está fazendo — apertando, pesando, tremendo?”.
  • Amplie o vocabulário aos poucos, sem pressão de acertar. Trocar “estou mal” por “estou irritado”, “estou cansado” ou “estou com medo” já é um passo.
  • Nomeie primeiro em silêncio ou por escrito, antes de precisar falar em voz alta pra alguém. Isso tira a pressão social do processo.
  • Observe padrões, não só eventos isolados. Um diário breve, de duas ou três linhas por dia, ajuda a perceber repetições que passam despercebidas no dia a dia.
  • Peça ajuda pra quem está por perto, em vez de pedir desculpas por não saber responder. Trocar “desculpa, eu não sei explicar” por “me dá um tempo, eu ainda estou tentando entender o que eu sinto” muda a dinâmica da conversa.

É comum ver pacientes que, nas primeiras sessões, só conseguem descrever o que sentem em termos físicos — “aperto no peito”, “cansaço”, “vontade de sumir” — e que, com o tempo, passam a nomear com mais precisão o que está por trás dessas sensações.

O que fazer agora, se você se identificou com isso?

Se você se reconheceu nesse texto e sente que trava toda vez que alguém pergunta “como você está”, vale considerar um acompanhamento em psicoterapia individual. Esse processo de tradução — do corpo pra palavra — costuma acontecer de forma mais rápida e menos solitária com alguém treinado pra ajudar nesse caminho.

Vale reforçar: essa dificuldade não aparece isolada. Ela costuma se misturar com outras questões — às vezes é um cansaço que já passou do ponto e a pessoa não percebeu, às vezes é uma ansiedade que já saiu do controle sem que ela conseguisse nomear o que estava sentindo até tarde demais.

Hoje eu atendo em Alphaville, Barueri, e também online para pacientes em qualquer lugar do Brasil ou do exterior. Se fizer sentido pra você, dá pra conversar antes por WhatsApp pra entender se esse é o momento certo de começar.

Perguntas frequentes

Alexitimia é a mesma coisa que ser “seco” ou indiferente?

Não. Alexitimia é uma dificuldade real de processar e verbalizar emoção, não uma escolha de personalidade. A pessoa sente — só não consegue traduzir o que sente em palavra com facilidade, o que muitas vezes é confundido com frieza.

Crianças criadas por famílias em que não se falava de sentimentos têm mais chance de crescer assim?

Sim, o risco é maior. Ambientes em que a emoção era ignorada, reprimida ou tratada como problema tendem a formar adultos com menos prática em nomear o que sentem. Mas isso não é uma sentença — é um ponto de partida que dá pra trabalhar.

Isso tem relação direta com ansiedade?

Pode acontecer junto, mas são coisas diferentes. A dificuldade de nomear emoção é sobre reconhecer o que se sente; a ansiedade é sobre como o corpo e a mente reagem diante de ameaça percebida. Uma pode alimentar a outra, mas não são a mesma coisa.

Dá pra desenvolver essa habilidade na vida adulta, ou já é tarde demais?

Dá, sim. Esse vocabulário emocional se constrói com prática e repetição, em qualquer idade. Não existe prazo de validade pra aprender a nomear o que se sente.

Terapia funciona mesmo se eu não souber explicar direito o que eu sinto?

Funciona — e é justamente esse o ponto de partida mais comum. Grande parte do trabalho terapêutico, no início, é ajudar a pessoa a construir essa tradução entre corpo e palavra, não exigir que ela chegue já sabendo nomear tudo.

Escrever ajuda mais do que falar, nesses casos?

Para muita gente, sim, pelo menos no começo. Escrever tira a pressão da resposta imediata e do julgamento de outra pessoa, o que facilita a primeira tentativa de nomear algo que ainda está confuso.

Psicóloga Monica Komora é psicóloga clínica, CRP 06/118140, com atuação em psicoterapia individual e terapia de casal, atendimento em Alphaville, Barueri (SP) e online para todo o Brasil e exterior.

Referências